Custódia de Ativos Digitais: Como Bancos Estão Se Preparando | Talkenização 179
calendar_month 27/05/2026
O mercado financeiro está passando por uma transformação silenciosa, mas profunda. Por trás de cada serviço de criptoativo oferecido por um banco, existe uma camada complexa de tecnologia, governança e segurança que a maioria das pessoas nunca vê. Guardar chaves privadas, organizar milhões de endereços em dezenas de redes e garantir que cada transação siga as regras de compliance não é tarefa simples. E é exatamente aqui que entra a infraestrutura institucional de ativos digitais.
A tokenização já é realidade no Brasil. Debêntures, recebíveis, energia e crédito público e privado já foram tokenizados. A regulação avança, com o Banco Central, a CVM e o marco legal das criptomoedas moldando o ambiente para que as instituições financeiras operem com segurança. Mas o que uma instituição precisa ter, de fato, para entrar nesse universo com escala e responsabilidade?
Com 25 milhões de investidores em cripto no Brasil e uma regulação cada vez mais clara, o momento é de construção. Os bancos que se organizam agora vão liderar o próximo ciclo de inovação financeira. E a escolha da infraestrutura certa pode ser a diferença entre escalar com segurança ou criar problemas sistêmicos difíceis de resolver.
Para responder a essas perguntas, a Flávia Jabur recebeu Fulvio Xavier, Engenheiro de Soluções para a América Latina na Taurus, empresa suíça fundada em 2018 e referência global em infraestrutura de ativos digitais para bancos e instituições financeiras. Com mais de 25 anos de experiência em tecnologia, Fulvio liderou projetos como o piloto do Real Digital em blockchain pública e acompanhou a evolução do mercado desde os tempos do Hyperledger Fabric até a era da custódia corporativa multirede. Hoje, a Taurus atende mais de 70 bancos em todos os continentes.
Confira o episódio completo:
O que é custódia de ativos digitais e por que ela importa
Antes de falar sobre infraestrutura, é preciso entender o conceito central: a custódia de ativos digitais não é guardar o ativo em si, mas sim guardar a chave que dá acesso a ele. Todo ativo digital, seja um Bitcoin, um token de debênture ou uma stablecoin, existe em um endereço na blockchain. Quem controla a chave privada daquele endereço controla o ativo.
Parece simples, mas a complexidade escala rapidamente. Um banco com um milhão de usuários operando em 40 redes blockchain diferentes precisa gerenciar, no mínimo, 40 milhões de chaves. Se esse banco adotar a estrutura de hot, warm e cold storage para cada usuário, como recomendado e exigido em algumas regulações, esse número chega a 120 milhões de chaves. Organizar, proteger e operar com essa quantidade é um desafio de engenharia e governança que vai muito além da tecnologia.
No mercado tradicional, a confiança entre as partes é garantida por escrituradores, custodiantes, securitizadoras e bancos. No universo digital, o blockchain assume parte desses papéis, mas cria um novo desafio: como garantir que nenhum funcionário faça uma transação não autorizada e que toda a operação siga as regras de compliance? Para entender melhor os riscos de guardar ativos por conta própria, vale ler sobre custódia de criptoativos e as vantagens e desvantagens de cada modelo.
A boa notícia é que bancos e financeiras já têm a estrutura, a confiança e a responsabilidade necessárias para assumir esse papel. Nada mais natural do que uma instituição que já guarda o salário, o financiamento e os investimentos dos seus clientes passar a guardar também as chaves dos seus criptoativos.
As três camadas de infraestrutura que todo banco precisa ter
Quando uma instituição financeira decide operar com ativos digitais, ela precisa estruturar três camadas fundamentais, e pular qualquer uma delas cria riscos operacionais e regulatórios sérios.
A primeira é a proteção das chaves privadas. Existem dois modelos principais: o MPC (Multi-Party Computation) e o HSM (Hardware Security Module). A escolha depende do volume de operações, da arquitetura da instituição e das exigências do regulador local. Na Turquia e na Suíça, por exemplo, as regulações exigem que no mínimo 80% dos criptoativos fiquem em cold storage, completamente desconectados de qualquer rede. O mesmo conceito que protege o Pix hoje, usando módulos de hardware para guardar chaves criptográficas, é aplicado na custódia de ativos digitais em escala institucional.
A segunda camada é a governança das transações. Não basta guardar a chave com segurança. É preciso definir quem pode autorizar cada operação, quantas aprovações são necessárias e quais limites se aplicam a cada perfil de usuário. Um operador de mesa não deveria poder mover 40 bitcoins de uma tesouraria sem passar por um fluxo de aprovação claro, exatamente como funciona em qualquer operação bancária tradicional. Esse nível de controle é o que diferencia uma custódia corporativa de uma carteira pessoal. Para entender como as operações financeiras tokenizadas funcionam na prática, o artigo da Descompliqi traz o fluxo completo.
A terceira camada é a integração com os sistemas existentes. O banco precisa conectar toda essa infraestrutura ao seu internet banking, aplicativo móvel e ferramentas de compliance já em uso. O cliente que quer comprar um ativo digital pelo app do banco precisa ter uma experiência fluida, sem precisar entender o que acontece por baixo dos panos. Parece simples, mas não é.
Estratégia multi-rede e o papel das stablecoins
Uma das discussões mais práticas do episódio foi a necessidade de operar em múltiplas blockchains ao mesmo tempo. Nenhum emissor de stablecoin relevante emite em apenas uma rede. O USDT circula no Ethereum, no Tron e na Solana. O USDC também está presente em múltiplas redes. Isso não é acidente: cada blockchain oferece custos, velocidades e funcionalidades diferentes, e estar em mais de uma é uma estratégia de resiliência e eficiência operacional.
Para os bancos, a lógica é a mesma. Operar em múltiplas redes permite arbitrar custos de transação, ter redundância em caso de congestionamento e atender diferentes casos de uso com a rede mais adequada. Assim como um banco opera com múltiplas bandeiras de cartão e em várias moedas, ele precisará de rails em múltiplas blockchains. Ser multirede é, como Fulvio colocou, quase uma questão de sobrevivência no novo mercado financeiro digital.
As stablecoins merecem destaque especial nesse contexto. Com volumes que chegam a 180 bilhões de dólares em circulação, elas já se consolidaram como um dos casos de uso mais claros e eficientes da blockchain. O Genius Act nos Estados Unidos acelerou ainda mais esse movimento. No Brasil, a regulação para emissão de stablecoins está sendo estruturada, mas o interesse institucional já é crescente. Para entender a diferença entre Real Digital, CBDC e stablecoins, a Descompliqi tem um guia completo sobre o tema.
O futuro: todo banco vai ter infraestrutura de ativos digitais
A pergunta que fecha o episódio é direta: todo banco vai precisar de infraestrutura de ativos digitais, assim como hoje todo banco precisa de internet banking? A resposta de Fulvio é sim, sem hesitação.
A evolução vai acontecer em etapas. Primeiro, as grandes instituições com capacidade tecnológica e apetite regulatório vão estruturar as suas operações. Depois, conforme os casos de uso se consolidam e a regulação fica mais clara, as instituições menores vão seguir. A tokenização bem feita reduz o custo de estruturação, melhora a liquidez de ativos antes ilíquidos e amplia o acesso a produtos financeiros de qualidade. Para entender como o piloto do Drex e seus aprendizados estão moldando esse futuro, vale conferir o episódio dedicado ao tema.
Fulvio aponta também a inteligência artificial como próxima fronteira nesse ecossistema. Agentes de IA que orquestram transações, monitoram carteiras e identificam oportunidades de alocação já estão sendo desenvolvidos. A convergência entre blockchain, tokenização e IA vai criar um sistema financeiro mais eficiente, transparente e acessível do que qualquer coisa que já existiu.
O dinheiro, como conhecemos, já está se transformando. A estrutura dos investimentos e a forma como as transações são registradas estão migrando para o digital em escala. Mais do que uma tendência, é um caminho sem volta. E quem entender como funciona a infraestrutura por baixo dos panos estará muito melhor posicionado para navegar nesse novo mercado financeiro.
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